domingo, 30 de março de 2014

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Ensopada de amores líquidos, estou partindo pra Marte.
(Sara Albuquerque)

Letícia

Conversando com Letícia (6 anos):
-Sarinha, o nome do seu pai é Márcio?
- é sim, Lê...
- ô, Sarinha, e você sabia Márcio é um nome de um mês?
(...)

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Meus ponteiros não mais pararam de rodar desde aquela terça-feira. Estou constantemente tictateando, mudando de hora, despertando. Era assim que achava que ficaríamos bem. Você longe do meu relógio e eu distante dos seus compromissos. Meus olhos não veem e meu coração sente. Nossos planos ainda estão muito vivos no subconsciente da minha bateria. Estou tentando me subornar com chocolates, filmes, livros, trabalho e música que são pra substituir a ausência do seu cheiro e do abraço de lã. Fico assistindo às alegrias dos outros nas redes sociais e percebendo que há muito eu não estava do lado de cá de quem só observa calado. Evito chorar pra não encher a fossa e afogar-me na solidão. Encosto minha rotina ao lado de outras pessoas para ouvi-las contar sobre dias e sensações que não conheço. Tudo porque eu quero ficar bem com esse bicho papão do tempo, transmudá-lo a meu favor e superar os medos de estar sozinha outra vez. É que antes eu já me sentia só, mas nunca quis admitir.

(Sara Albuquerque).

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

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Respirações ofegantes quando os corpos se aproximam. No beijo, o encaixe lascivo de duas línguas que se falam há muito, mas pouco se tocavam. Ombros, pescoço, botões, parede e olhos entreabertos atentos à singularidade daquele momento tão aparentemente intocável. Ficam no ar aquele carinho vermelho e a ironia perplexa de que foi pela porta trancada que você me deixou entrar. E nada me vem à cabeça para ser dito. Só existiam calor, som e o pensamento nada ingênuo: "quando tem química, é foda!".

Sara Albuquerque.

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Não é de pêra, uva, maçã ou salada mista. Não é de livro novo nem de picolé azul. Não é de fogo, neve ou maresia. Tem cheiro de leveza, de simplicidade, de carinho amassado. É cheiro que cabe num abraço e se esconde na pele dos braços do outro quando eles dizem adeus.

Sara Albuquerque.

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Bebi pra me lembrar que não te esqueci.

Sara Albuquerque.

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Eu faria prazerosamente minha rotina o ato de comer seus olhos.

Sara Albuquerque.

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Fui lá e peguei o menor copo transparente. Em outros tempos, teria feito questão pelo maior de todos. Mas agora eu estou mais contida, menos ansiosa, segura daquilo que realmente quero. Retirei a pazinha de ferro daquele amontoado de água fria e reparei em todas aquelas cores que tinham embaixo do vidro. Ali, as cores ganhavam sabor gelado e outras denominações. Amarula, chiclete, floresta negra, frutas do bosque, sonho de leite... Flocos! Ah, flocos! Sempre achei estranhamente fantástica a mistura do branco de neve com o granulado. Depois de encher o copo de sorvete, vieram as bolinhas coloridas, jujubas, dentaduras comestíveis, mais granulados e o momento-mor da cobertura. Morango, chocolate, caramelo, menta. Põe, mela o dedo e, escondido do mundo, lambe a cobertura foragida. Por fim, peguei aquela espátula que melhor combinasse com a minha mistura. Porque eu, que nunca me dei muito bem na cozinha, pelo menos na hora de embelezar o sorvete, sempre me senti um tanto professora. Ficava tão bem revestido que dava até pena de desmontar e colocar na boca. Mas também se eu ficasse só ali olhando, logo ele derreteria e um caldo colorido sem muita definição inundaria tudo. Então, eu tomei a primeira colherada. Minha língua, astuta, foi tomando nota do sabor de cada cor. Era um gelo que me aguçava a vida por dentro e mandava embora aquele calor 37º do verão nordestino. Delicioso como só ele mesmo, o sorvete foi sumindo do copo diante das minhas escavações últimas e raspadoras das dobradiças do plástico. Naquele minuto, ele estava pincelando todo o meu estômago. Saí de lá atenta à novidade de terem criado um sorvete chamado “pedacinho de céu”, que chegaria em breve. Boquiaberta, imaginei o tamanho do azul leve que coloriria minhas paredes internas. Comecei a rir. Sem receio do desconhecido, eu estava disposta a me sentir azuladamente infinita e estrelada de uma vez por todas.

Sara Albuquerque.