sexta-feira, 4 de julho de 2014

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Diferentemente de muitos que alegam ter nojinho de baratas, a minha verdade é outra: sofro com medo delas. Sinto que as contrações ventriculares aceleram sempre que elas aparecem. São fingidas aquelas danadas. Fingem que morrem, que não voam, que são inofensivas. E se organizam num complô contra mim a todo momento em que estou sozinha. Juro que tentei curar-me desse pavor com a leitura de “A paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector. Quis, no mais íntimo, ver baratas sob outros ângulos e perspectivas. Não dá. Sequer consigo me defender delas. “Ô, mainha!” – chamo como se fosse ainda uma criança de 6 anos. E olhe lá: tem pequenino que nessa idade já é mais corajoso que eu quanto a isso. Minha mãe sempre foi uma super-heroína em vários aspectos. Exterminadora de insetos em geral é apenas mais um deles. É... Tenho que tirar o chapéu e agradecê-la por todas as baratas que um dia retirou do meu caminho. Juro que quero ser igualzinha a ela quando crescer.

Sara Albuquerque.

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Letícia (6 anos) está sentada comigo, conversando no quarto. Ao som do chamado de sua mãe, ela sai correndo. Grito:
- Xau, Lêêê!
Ela retorna com rapidez e diz:
- Sarinha, eu não vou embora agora não. 
- aaah! Então, devolva o meu "xau".
Ela fez como se tirasse algo do bolso e jogou o "xau" invisível na minha direção. Eu o peguei no ar e guardei na roupa.
É bem isso! Gosto de Letícia porque a gente se entende.

Sara Albuquerque.

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Levo um choque mental toda vez que olho pra trás. E ainda assim ouso virar o pescoço. Talvez meu emocional goste do sofrimento silencioso que é reviver o passado. Nada pode ser mudado de lugar. Não existe efeito borboleta para amores fadados ao prazo determinado. Uma felicidade temporária. Tentei me apegar às suas indiferenças e à falta de cuidado com o meu coração. Mas te amava demais. Enxerguei todas as suas incompreensões como algo que eu deveria aceitar. Meu sentimento gritante renovava as chances de te ter por perto. Amei tanto a ponto de não me perceber sozinha. E hoje, convictamente só, as pessoas não me deixam esquecer você. Todos perguntam por sua presença como se nossos corpos e almas ainda estivessem conectados por um pacto universal e invisível. É duro. Não é que tenha mágoa de você, mas é insuportável a lembrança que as pessoas insistem em me fazer retornar a todo tempo. Sinto-me como uma ampulheta. Quando estou quase terminando de derrubar toda a areia para o outro lado do vidro, acontece algo que me inverte os poros e me vira de cabeça para baixo. Recomeço. E depois de novo. Estou juntando forças para me manter em pé e inteira. Embora eu possa ser substituída na sua vida, todas as pessoas que passam pela minha história são insubstituíveis porque tratei de vê-las assim. Esta sou eu: sempre vou me importar. Sempre.

Sara Albuquerque.

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Estou afoita à procura do meu colírio.
- Lê, você viu meu colírio?
Letícia (6 anos), com os cabelos cacheados presos num rabo cavalo no alto da cabeça, olhou-me curiosamente e perguntou:
- Sarinha, é um verdinho? Um que é bem pequenininho? Que tem umas palavras nele?
- É esse mesmo, Lê. Você viu?
Então ela respondeu:
- Vi não.
E saiu para brincar.

Sara Albuquerque.

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Saindo do banho com a toalha ainda junto ao corpo, escuto batidas na porta. Abro-a e não tem ninguém. Enquanto troco de roupa, escuto as mesmas batidas, mas novamente não há ninguém atrás da porta. 
Quando as batidas surgem de novo, percebo que elas estão vindo do guarda-roupa. Ao abrir a porta, Letícia (6 anos) sai correndo de dentro do armário morrendo de rir. Ela ri, ri, ri, ri tanto nesse mundo que começo a gargalhar contagiada pela alegria dela. Aí ela deita na minha cama ainda soluçando com tantos sorrisos e grita:
- AI, SARINHA, EU ME SINTO NA MINHA ÉPOCA!!!
(...)
E a gente ri pra sempre.

Sara Albuquerque.

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Naquele dia, depois de tantas outras tardes únicas e diferentes ao lado de Letícia (6 anos), pela primeira vez ela me falou sobre "paquerinhas":
- ...pois então. Aí ele é meu namorado porque eu só tenho um.
- Puxa, Lê. E você o vê todos os dias?
- ...é. Quando mainha não vem de bicicleta, a gente vem no ônibus da escola... Aí eu entro primeiro e ele sempre olha pra mim. Ele faz assim com a cabeça, ó!
Ela se levanta e finge como se estivesse na sua cena mental, onde um menino acompanha o andar dela com a cabeça.
- E ele tem quantos anos?
- Ele tem seis anos. E eu tinha cinco quando a gente estudava juntos, mas eu dizia que já tinha seis...
- Oxe, Lê! E por que você dizia que tinha seis?
Ela coloca as mãos nos olhos e começa a rir.
- Mas ele fala com você no ônibus?
- Não... Acho que ele esqueceu de mim.
- Mas vocês não são namorados, Lê?
- Somos. Mas ele não sabe ainda.
- Ah... Entendi.

Sara Albuquerque.

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Letícia (6 anos) me pergunta assim que desligo o telefone:
- Sarinha, por que você disse que vai pro Fórum com ela? O que é fórum?
- Fórum, Lê, é...
- Espera! Já sei! Vou dar um "fórum" em você...
Não tive como me conter de tanto rir.

Sara Albuquerque.

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E chega Letícia (6 anos) empolgada para me contar sua grande novidade:
- Sarinha, quando mainha colocou meu vestido de São João ficou no joelho!... E ano passado batia no meu pé e ficava arrastando um pouquinho no chão... E agora está no joelho, Sarinha!... Eu cresci uma canela inteira, Sarinha!... Acho que ano que vem eu vou estar gigante! (...)
Falou a menina que já é gigante, mas ainda não se deu conta disso.

Sara Albuquerque.