Estava naqueles laboratórios de exames médicos e me distraía com os quadros nas paredes. Acho fantástico como a maioria dos ambientes clínicos opta por quadros de linguagem abstrata. Naquele local, havia um deles que sempre mexia com minha imaginação: já tinha avistado citoplasmas e núcleos celulares, divisão molecular, nozes, enfim... Tenho que arranjar algo para me distrair, enquanto aguardo e geralmente carrego sempre um livro na bolsa. Mas, desta vez, despertou-me a curiosidade de ler as revistas oferecidas aos clientes.
Uma delas me chamou atenção, a chamada “Cidade Nova”. Curioso a revista ser de Janeiro deste ano, porque pelo menos nos cabeleireiros a desatualização prevalece! Uma das matérias abordadas pela capa tinha como título “Sexualidade como linguagem do amor”. Reportagens que retratem “amor e sexo” sempre me instigam a leitura. Seria hipócrita, se dissesse o contrário. Gosto de ler a respeito, principalmente, porque sempre aprendo e conheço opiniões de especialistas das áreas de Psicologia, Antropologia, Sexologia.
Posicionei a revista nas mãos e procurei a página da matéria sugestiva (é claro que, neste momento, notei os olhares das pessoas interessadas em saber sobre o que eu estava lendo, como se aqueles assuntos fossem de outro mundo ou como se nunca lessem a respeito daquilo, sempre que tivessem oportunidade). Iniciada a leitura, descobri que, dentre cada dez casais entrevistados da pesquisa, oito mulheres reclamam, porque “os maridos não falam”. Daí, vem a explicação científica de que o cérebro feminino desenvolve mais a região da expressão verbal, do sentimentalismo, da interioridade; enquanto o masculino amplia a esfera do lógico-racional e a orientação espaço-tempo.
Talvez, tentem explicar o porquê homens e mulheres são tão diferentes, mas se houver uma doação recíproca, os fatos poderiam ser bem distintos também, não acham? Bom, casamento é algo distante dos meus planos, no momento. Namoro desde os meus treze anos e tenho a ideia de que é preferível namorar a “ficar” com as pessoas. Sempre encarei com seriedade os meus envolvimentos. É claro que, quando a gente vai ficando mais velho e maduro, a vontade de fazer dar certo e o desejo de estar com aquela pessoa ao seu lado, durante todas as situações da sua vida, é cada vez mais forte. Namoros servem exatamente para isso: conhecer, crescer, sentir o outro, numa intensidade que as outras pessoas não veem e não sabem.
Com o tempo, vamos percebendo o que queremos e o que não queremos para uma relação amorosa. A dor, os erros, as decepções, as mágoas, a não reciprocidade nos fazem refletir por longos meses e a conjecturar uma espécie de novo modo de se relacionar. Ficamos mais espertos e menos “alguma coisa” (“cada um sabe onde seu calo aperta”). As mensagens do corpo começam a ser ouvidas com cautela e temos a total responsabilidade por nossos atos. Tornamo-nos seres convictos das características pessoais que adoraríamos que nosso parceiro tivesse.
Não. Não me refiro à pessoa perfeita, porque esta não existe. Mas, com certeza, há aquela pessoa que junte as imperfeições delas às suas e tudo pareça “perfeito”. Às vezes, parece ser completude. Sei lá... Quero alguém que me compreenda, que fale do que pensa a respeito das minhas opiniões, mesmo que sejam pensamentos diferentes dos meus. Quero que, mesmo que desorganize os apetrechos do quarto, saiba organizar as nossas viagens de fim de semana e os nossos estudos cotidianos. Quero que, não sabendo massagear as minhas costas, alise meus cabelos e me cause arrepios no dorso. Não quero alguém que faça com que eu me sinta sozinha, estando ao seu lado, ou que seja indiferente ao que eu digo. Não quero alguém que me encha de beijos e abraços, mas não saiba lutar contra os nossos medos junto comigo. Não quero...
O nível de intimidade que um casal se permite vivenciar depende exatamente da qualidade com a qual se relacionam no dia-a-dia. As conversas, as atitudes, os segredos, os suspiros, o sabor do beijo... Aí a sexualidade vem tão naturalmente, como a tal “linguagem do amor”. Tudo exige tempo, convívio, experiências. É preciso namorar, namorar e namorar a mesma pessoa, para descobrir se ela é realmente quem você quer, para estar ao lado sempre. Afinal, casamento é uma decisão madura e nenhum fruto nasce nesta fase da vida. Primeiro, ele é todo verdezinho... Depois, a cor e o gosto mudam, mas os frutos permanecem sempre com o mesmo nome. Só que, agora, prontos para serem colhidos.
Sara Albuquerque.
¹ SCOTTO, Raimondo e Maria. Sexualidade como linguagem do Amor. Revista Cidade Nova. Janeiro, 2010, nº 1.



7 Artesanato(s):
Graças a Tupã que homens e mulheres são diferentes, caso contrário, coitado de mim, estaria perdido nesse mundo. As diferenças é que tornam as coisas divertidas nesse ponto, é claro, causam algumas discussões tb.
Sob um olhar geral ao que você citou nesse poste, este é um assunto em qual eu penso e tenho pensando cada vez mais, especialmente no tocante a relacionamentos, vida a dois, casamento, etc. Essas coisas tem que ser muito bem pensadas, eu não vou em busca de certezas, eu vou atrás de não precisar ter certeza.
Adorei este também! ;*
muito legal sua visão.
Hum... acho que é melhor que as coisas sejam dessa forma mesmo.
Além de ser organizada, é bem definida e estratégica.
Lindo!
Relacionamento é uma equação de apenas dois elementos, mas é tão complexa...
Gostei do teu texto...
Bjs
Sarinha, vc cada vez me surpreende mais! Parabéns!
Muito bom e verdadeiro o texto.Não basta amar,tem que saber como amar! parabéns :*
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