sábado, 3 de março de 2012
Desencontro
Os encontros e os desencontros dessa vida nos deram uma chance de ficar juntos. Confundindo a amizade com a paixão adolescente, deixamo-nos envolver pela vontade de conhecer o outro sem escapes. Do beijo doce até o pegar nas mãos, aproveitamos cada segundo daquelas 3 horas juntos. Você era, como diriam as românticas de plantão, muito “fofo”. Era tanta fofura que eu me preocupava em não machucar sua boca com o meu aparelho dentário. Aquele aparelho que me deixava mais menina e desajeitada ainda, mas que você parecia pouco se importar ou nem notar que ele estava ali. Com certeza, as borrachinhas entre os ferros deviam ser coloridas ou “verde-cheguei” – típico do meu comportamento brincalhão e “nem aí” para a opinião alheia.
Não sei como tudo aconteceu. Lembro-me de estar sentada ao seu lado naquele auditório de teatro e de conversarmos alguma coisa como a sua banda de rock favorita ou o novo estilo do Prof.Newton. De repente, já tínhamos nos beijado uma, duas ou três vezes. Quando saímos do teatro, deixamos que nossos pés nos guiassem até o ponto de ônibus. Menores de 18 anos e literalmente pobres, só nos restava a opção de voltar para casa e pensar no que tinha acontecido. “Ficar” parecia o termo adequado para aquela situação – por mais que eu dissesse que não gostava daquilo. Ele tinha “ficado” comigo; e eu, com ele. A gente teria se “curtido” se existisse Facebook, mas, à época, só havia ICQ, Orkut e garagem.org.
No outro dia, não sabíamos como agir direito um com o outro. Eu deveria voltar a tratá-lo como meu amigo-de-sala, fingindo que nada aconteceu? Não. Fui além disso. Chamei-o para conversar e pareceu um pouco de cena de novela das 6 da Globo:
- Olha, eu fiquei pensando no que aconteceu ontem... Foi bom, sabe. Mas acho que nós deveríamos ser somente amigos.
- Poxa... Eu também estava querendo falar com você porque eu penso exatamente a mesma coisa. Você é legal, divertida, mas o sentimento que cultivo por você é de amizade.
A gente se abraçou tão forte. Tínhamos ganhado na MegaSena. Não nos machucaríamos, tampouco deixaríamos isso influenciar na nossa amizade. Fizemos um contrato verbal de “não ficar” e o mundo voltava a ser perfeitinho daquele modo.
Os anos se passaram e poucas foram as vezes que conversamos mais de 5 minutos, mas eu sabia que, a qualquer momento, poderia encontrá-lo e saber das novidades e das suas vitórias sempre tão valiosas. Vê-lo crescer tão bonito e bom me fazia feliz. Tenho certeza que você também ficava feliz por mim quando abria aquele sorriso aparelhado e me dava um abraço. Agora, você quem usava o aparelho dentário.
Até que bumft! Veio uma maré e levou você da gente. Sem avisar nada. Ficou aquele gosto salgado da saudade que você deixou. Chorei igual a adolescente que eu não era mais. Eu me despedia mais uma vez, mas para sempre. Não guardei fotografia ou carta. Apenas a lembrança daquelas três horas de sinceridade mútua e dos cinco-em-cinco minutos bimestrais com os quais você me presenteava.
No enterro, muitas flores ao redor do caixão. Demorei um mês para engolir a ficha de que aquilo realmente havia acontecido. Seus pais, agora mais velhos e não mais parecidos com as imagens das minhas memórias, debruçavam-se sobre o seu corpo pálido e petrificado. Mas o que me chamou atenção foi a menina-de-preto. Quase todos estavam em sinal de luto, mas ela era diferente das outras pessoas. Era jovem, bonita, cabelos longos e pele clara. Sua expressão espelhava uma dor infinita no peito, como se lhe tivessem retirado a chance da felicidade. A namorada – aquela a quem ele dizia que ia casar e ter filhos. Um amor denso, que palavras não podem descrever.
Senti vontade de abraçá-la, de tentar acalmá-la; mas eu não conseguia sequer conter o ritmo acelerado do meu coração. Então, eu só fiz orar. A verdade é que eu nunca soube lidar com fins.
Sara Albuquerque.
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2 Artesanato(s):
Como a vida e loka hoje agente conversou, se divertiu e deu gargalhadas enquanto eu tinha diante de ti o meio momento "confições de adolescente", sobre essas minhas aventuras kkkk foi demais, adorei, até porque o bom dessas nossas conversas e que nada tem convençoes, agente não precisa marcar, simplesmente acontece, adoro vc, bjs estrelinha
O que dizer depois de ler esse belo conto?!
Adorei!!!
Bjs!!!
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