Sara Albuquerque.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Vão
É assim que a gente se sente quando vai se perdendo de si. Aquele rombo 10x8 no estômago começa realmente a incomodar. Parece filme de terror, onde a mocinha nada sagaz e de cabelos cacheados vai em direção ao escuro, buscando saber quem está fazendo o barulho estranho no sótão. Ela sabe que vai morrer e pouco importa. A curiosidade e a música de suspense ao fundo instigam-na a continuar. Alôôô! Só se salvam as louras inteligentes no final.
Foi exatamente deste jeito. Deixei pedacinhos dos meus braços, pêlos e suspiros no chão de paralelepípedos e passarinhos gigantes comeram tudo. Não me lembro mais como era andar com 100% do maior órgão do corpo humano. Tornei-me dependente da atenção de semáforos. Semáforos sempre verdes – nunca vermelhos ou amarelos, infelizmente. “Pode passar” – ele urgia como um leão. E eu, hipnotizada em síndrome de Estocolmo, apenas esperava um rastro de percepção, zelo. Tão ingênua, prestes a morrer na faixa de pedestres.
Por um piscar de olhos que durou 5 minutos e 3 segundos, lá estava eu de novo. Quase inteira, sentindo saudade do que um dia fui e de quem não sei se conseguiria resgatar. No momento em que o sol gravitacional da minha vida era eu, sempre tive certeza de que rumo tomar. Agora, tudo parece escuro, inseguro, incerto. E a aceitação por parte de terceiros agora tende a me importar.
Onde escondi aquela independência e coragem que me deu forças para enfrentar o bicho-debaixo-da-cama? Não consigo. Só mesmo uma sessão de regressão para me fazer recordar em que momento decidi me perder de mim.
Sara Albuquerque.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O peixinho suicida
Também não compreendo. Ele deveria ser forte, esguio, além de super veloz. Sua espécie romântica, ameaçada de extinção, era uma das mais preservadas pelos cientistas. Mas, com medo dos predadores do rio, ele decidiu que passaria a viver em águas salgadas. Foi de encontro a todas as leis da natureza. A doçura e a maciez com que estava acostumado não mais existiam. E, agora, ele era obrigado a enfrentar os perigos do oceano, além daquele gosto salgado de mar aberto. Outrora tão peculiar e cheio de vida em seu antigo habitát, agora, o peixinho era feio, murcho e apático. O mar, mesmo tendo também três letras, era essencialmente diferente do rio onde ele passara a infância. Sabia que a culpa era sua. Como pode um peixe de rio querer viver no mar? Nem se lembrava mais dos motivos que alicerçaram sua escolha de anos atrás. E o peixinho só queria ir embora. O problema era que não se recordava do caminho de casa.
Sara Albuquerque.
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