Quem é Ela?



“Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso, porque já chorei demais...
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz...”
(Tocando em Frente)

7 de Novembro de 1990. – Eu nasci corpo, sorriso e olhos, que não eram “de ressaca”. Eram olhos curiosos, grandes, castanho-claros. Descobrir o mundo com engatinhadas e questionamentos até que era fácil, quando não havia tomadas de energia no caminho. Mas o tempo também passa para quem deseja sérios desafios. As pessoas grandes impulsionaram uma coragem recolhida dentro de mim, para que eu andasse com meus próprios pés. Aí, eu percebi que o espaço era bem maior que aquele cercado retangular e os braços de minha mãe. Tudo se tornou amplo demais, fazendo com que nascesse a ambição honesta de crescer. As roupas e calçados pequenos, a cada ano, davam lugar a novos tamanhos. Pude acelerar meus passos nas pedaladas de uma bicicleta e os meus diários puderam segredar meus primeiros textos e dúvidas. Foi nadando que minha respiração descansou aliviada e, com a sapatilha nos pés, descobri as limitações e belezas de uma dança. Agora, eu era também voz, ritmo e cheiro.

O conhecimento era, sem dúvida, imprescindível para alicerçar aquelas conquistas do colegial. Quantas leituras de estórias terminadas em ‘felizes para sempre’; quantas brincadeiras de amarelinhas e esconde-esconde; quantas paixões nunca reveladas; quantos sonhos de vôo esquecidos... Uma timidez implícita em cada pedacinho que fosse meu. Cabelos amarrados, diadema amarelo, cachinhos na maçã do rosto, face sem maquiagem, sandálias com laços de fita rosa-claro. Tão menina ainda, para entender rupturas familiares, algumas quebras de razão e pífios pré-conceitos. Meus pensamentos só rodeavam em volta dos “porquês” não respondidos e dormiram na memória, deitados em cama de páginas em branco. Amizades verdadeiras sempre foram poucas. O triste é saber que tive que precisar do tempo e de algumas decepções, para descobrir isso. Mas ‘quedas’ me fizeram fortes, ajudando-me a consolidar de forma mais seletiva aqueles a quem eu denomino de amigos.

Foi preciso atitude, para me envolver com os mais diferentes personagens que o Teatro me oferecia. Encontrando-me em alguns, vivenciando outras histórias, experimentando narizes de palhaço e apetrechos engraçados, encontrei a Arte. Ela veio rodeada de romantismo e sensualidade, emergindo-me ao mundo dos encontros amorosos. Os sapinhos dos meus contos passaram a existir na vida real. Trouxeram-me cartas, planos, conquistas, deliciosas tardes de algodão doce e paixões passageiras. Eu era sabor, sonhos e lutas. As curvas delineavam a mulher em mim, que deixara de ser apenas embrião. Mas elas eram leves, claras, singelas. Se existia uma ‘soberana princesa’, como bem traduzia o nome “Sara”, eu prefiro que ela, mesmo só internamente, ainda esteja viva, para me recordar dos meus amigos imaginários e das casas em cima da árvore. Princesa sem Salto Alto.

Algumas trilhas sonoras foram expostas no fundo da minha imaginação, quando me vem à tona algumas lembranças. Alguns livros, personalidades, marquinhas de carinho e palavras cercaram meu cotidiano de alegria e conforto. É fato que ter que encarar o outro lado da moeda também é preciso, quando se querem equiparar as faces da mesma. Saber da dor e das angústias do outro e tentar ajudá-lo de alguma forma é um item relevante, para deixar a estrada da vida com a sensação de dever cumprido. Mas cautela e prudência são mais que necessárias. Caso contrário, ficamos com a impressão de fracasso nada boa para seguir adiante. Percebemos que para mudar o mundo, precisamos de estudo, de fundamentos sólidos, de justiça. Optar por fazer um curso na área de Humanas, talvez, foi um risco muito grande, por uma parte de si amar lidar com a Biologia. Mas por acreditar numa sociedade menos imperfeita (longe das utopias de Tomás Morus), resolvi embarcar do navio do Judiciário e espero poder cumprir minha responsabilidade de cidadã, com arcabouço nele.

Noto que, hoje, grande parte de mim são sentimentos. Imensos, pequenos, tristes, alegres, mágicos, lúdicos, sóbrios, tímidos... Vivos. Não pretendo que as pessoas projetem como eu deveria ser. Sou o que sou e o que não sou. Sempre nesse impasse de crescimento, amadurecimento e mudanças, que nos implica uma infinidade de qualidades e defeitos, que só quem nos olha com o coração pode nos julgar conhecer de verdade. Daqui, atiro-me no vazio do futuro, visando preenchê-lo com cores e adereços. No fim, sou apenas uma colcha de retalhos, que costurou e abrangeu os cortes bons e ruins que os momentos a ofereceram. E no fim dos fins, sou uma vida inteira colocada num livro que respira fundo e que nunca dorme, na esperança de ter sempre paz de espírito.

Sara Albuquerque. ♥